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Meio Ambiente. Observatório

Agroecologia: a espera feliz

03/06/2013

Por Selvino Heck*

Serra do Caparaó, Zona da Mata, Minas Gerais. Caminhar 800 metros no meio do mato, em direção ao Pico da Bandeira, até as cachoeiras de Vale Verde, iluminados pela ciranda e mística – não vamos andar sozinhos, vamos andar juntos – do cantador e violeiro Sebastião Farinhada, em silêncio, como se em oração, escutando o barulho suave da água escorrendo livre e solta do morro no meio das árvores, vendo de novo, como me disse uma moça, uma flor da infância, o barulho suave do vento, alguns passarinhos cantando, chegar no Vale Verde, entrar de mãos dadas com companheiras e companheiros de jornada na água fria e gostosa, admirar a natureza como se fosse a vida, e é a vida, olhar os rostos iluminados de felicidade do irmão, da irmã, do companheiro, da companheira que molha os pés na água refrescante, cantar, cantar e cantar e ser feliz.

Esse era o clima, o sentimento, o espírito da Caravana Agroecológica e Cultural da Zona da Mata mineira: rumo ao 3º Encontro Nacional de Agroecologia (ENA), com centro de encontro no município de Espera Feliz, 21 a 25 de maio. No caderno distribuído para os participantes da Caravana, lia-se: “As caravanas territoriais na construção do 3º ENA. As atividades do processo de preparação do 3º ENA deverão ser organizadas procurando respostas à seguinte questão central: Por que interessa à sociedade apoiar uma estratégia de desenvolvimento rural com base na agroecologia e no fortalecimento da agricultura familiar e dos povos e comunidades tradicionais?”

As caravanas são exercício coletivo de análise, com questões problematizadoras sobre a posse da terra/direitos territoriais, soberania, segurança alimentar e nutricional, proteção, manejo e conservação dos recursos naturais, saúde, economia e trabalho, mercados, identidades e cidadania, questões sócio-organizativas, conflitos, políticas públicas, com visitas a experiências agroecológicas e de produção orgânica da Zona da Mata mineira.

Segundo o texto preparatório, o território da Zona da Mata Norte é marcado por diversas experiências e conflitos. São experiências organizativas, envolvendo organização sindical, entidades de apoio, Universidade Federal de Viçosa, Associações e Cooperativas; experiências com diferentes tecnologias sociais, desde uso de homeopatia na lavoura até sistemas agroflorestais, além de uma diversidade de experiências com educação do campo. Entretanto, também são diversos os conflitos no território, que vão desde a mineração, envolvendo exploração da bauxita e mineroduto, a conflitos com barragens e por terra.

A organização dos agricultores familiares da Zona da Mata começa a se constituir enquanto movimento a partir da década de 1980 com o Mobon (Movimento Boa Nova), vinculado à Teologia da Libertação e às Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) da Igreja Católica. Fundaram-se sindicatos de trabalhadores rurais. Criou-se a Comunidade Alfa, estudantes que desenvolviam práticas alternativas de plantio e alimentação e surge o Centro de Tecnologias Alternativas (CTA-ZM). A partir daí, surgem as primeiras experiências chamadas de “tecnologias alternativas”, com o resgate, avaliação e produção de sementes crioulas, práticas de adubação verde e conservação dos solos, experiências que vão adquirindo enfoque agroecológico.

Cria-se o movimento Em Defesa da Vida e do Meio Ambiente na década de 1990, com forte inserção da saúde como temática do trabalho sindical, experiências com medicina alternativa e homeopatia, principalmente no município de Espera Feliz. Também a criação das Escolas Família Agrícola (EFAs) é um marco na educação do campo na Zona da Mata, ampliado na região com a Associação das Escolas Famílias Agrícola (Amefa).

As lutas e as formas de mobilização se ampliam, com cursinhos populares para filhos de agricultores e agricultoras, com a radiocomunicação organizada pelos sindicatos, as conquistas de terra e a criação de assentamentos em Araponga e Visconde do Rio Branco. Marco importante dos anos 2000 é a relação com a Universidade Federal de Viçosa, na construção da rede sociotécnica de desenvolvimento da agroecologia, envolvendo organizações de assessoria e organizações da agricultura familiar e camponesa. Nos anos 2000 cria-se um Fundo Rotativo de Crédito Solidário, vinculado ao sistema Cresol. Agora, na Caravana, foi lançada a moeda social Vale Solidário, aceita por todo comércio de Espera Feliz.

A Caravana era de troca de conhecimentos, e era também celebração, em tempos de construção coletiva, governo federal, sociedade e movimentos sociais do Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, a ser lançado em breve.

Espera Feliz tem esse nome porque antigamente os caçadores faziam uma feliz espera por antas – há um monumento na praça central retratando dois caçadores e uma anta no chão à sua frente. Um dos fundadores do Mobon, o irmão sacramentino João Rezende, disse que hoje devemos ser cachorros para detectar os caçadores predadores da natureza.

Ao som de Eu só peço a Deus, cantado por Mercedes Sosa, todas e todos disseram que a espera é feliz. A espera está sendo feliz. E quando a espera está sendo feliz é porque há sonhos, e os sonhos estão sendo realizados. Sonhos de um novo homem, de uma nova mulher, de uma nova sociedade, uma sociedade agroecológica, de valores agroecológicos, homens e mulheres em paz com a natureza, homens e mulheres construindo a solidariedade e a justiça.

O sonho é, o sonho está sendo, agroecologicamente, uma espera (e uma construção) feliz.

* Selvino Heck é assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República

Fonte: Jornal do Brasil

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