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Inclusão de pequenos e médios produtores é desafio da certificação de sustentabilidade

11/11/2015
Simpósio das Normas de Sustentabilidade Globais © FIESP

“Na medida em que os compromissos com a sustentabilidade começam a ser implementados, os pequenos produtores podem ser deixados à margem do processo. É preciso se perguntar se há espaço para esses produtores nas grandes cadeias”, observou Isabella Vitali, gerente do Brasil e coordenadora da América Latina da Proforest. O segundo painel do Simpósio das Normas de Sustentabilidade Globais trouxe um debate acerca dos desafios de trazer pequenos negócios aos principais mercados, através do processo de certificação. Moderado por Vitali, o painel apresentou as experiências dos mercados emergentes de Honduras, Brasil e Colômbia.

Segundo Vitali, há uma grande quantidade de pequenos produtores com dificuldades em atender requisitos de sustentabilidade, sem recursos para investir em melhorias e que acaba trabalhando com mercados menos exigentes. Isso os leva a um ciclo vicioso, no qual as más práticas levam à falta de investimento e a falta de investimento leva às más práticas.

Por conta da preocupação com o risco da implementação de suas políticas de sustentabilidade, um grupo de empresas, agências de desenvolvimento e organizações não governamentais (ONG) formou o Programa REDD+ (Redução de Emissões oriundas do Desmatamento e Degradação florestal) e de Aceleração do Pequeno Produtor (Sharp, na sigla em inglês), uma parceria com o objetivo de dar oportunidade aos pequenos produtores de se inserir nas cadeias produtivas, e reduzindo os riscos destas em trabalhar com os pequenos produtores, um dilema para muitas empresas.

Conforme explicou Vitali, o Sharp atua com a troca de experiências, a identificação de boas práticas e o desenvolvimento de ferramentas para ajudar as empresas. Os conceitos usados visam a simplificar procedimentos e fazer análise de risco em cadeias que englobem os pequenos produtores.

Gestão e assistência técnica

Segundo os palestrantes, as dificuldades em certificar pequenos produtores são comuns entre Brasil, Colômbia e Honduras, que enfrentam falta de investimentos, estrutura, assistência, entre outras. Segundo o representante brasileiro, o conselheiro técnico para o café do Departamento de Agricultura do Estado de Minas Gerais, Niwton Castro Moraes, um dos maiores desafios do estado é melhorar a gestão dos processos de certificação. Moraes integra o Programa Certifica Minas Café, do governo do estado, cujo foco é assegurar que o produto final foi produzido dentro de critérios de sustentabilidade social e econômica. De acordo com Moraes, atualmente não há capacidade e estrutura para oferecer assistência técnica para todos os produtores incluídos no programa.

Em Minas Gerais, o serviço de assistência técnica é gratuito e os demais processos para a certificação podem ser feitos a custos baixos, tudo para facilitar o acesso aos produtores. “Nossa capacidade de expansão da assistência técnica está próxima do limite. Uma solução seria redesenhar o programa para que ele possa dar prioridade aos pequenos produtores”, explicou. No formato atual, metade dos participantes é formada por pequenos cafeicultores. “A dificuldade maior não está em conseguir a aprovação da certificação. A gestão é o maior desafio”, completou.

Para que os produtores rurais como um todo adotem de forma massiva a iniciativa da certificação, Moraes propôs a adoção de recompensas, como prêmios, ou, por outro lado, a aplicação de punições para aqueles que não cumprirem os critérios da certificação, a exemplo de restrições ao mercado.

Infraestrutura e melhoria contínua

Outra barreira citada por Moraes é o desinteresse dos jovens no trabalho do campo. “As novas gerações não querem assumir o trabalho dos pais e não criam vínculos com a gestão”, observou. Para Mario Eduardo Vega, diretor de Planejamento Comercial da Federación Nacional de Cafeteros de Colômbia, é importante ter uma atividade rural bem remunerada para despertar o interesse dos jovens. Dos 550 mil cafeicultores colombianos, segundo Vega, 96% são proprietários de cinco ou menos hectares de terra. “Tive a oportunidade de visitar fazendas de 500 hectares no Brasil”, disse Vega, ressaltando ser essa uma grande diferença entre a produção de café na Colômbia e no Brasil. “Apenas 1% dos produtores tem mais de 10 hectares, o que consideramos grande”.

Para o diretor, é preciso compartilhar infraestrutura e melhorar a distribuição de custos de produção e buscar a transparência e melhoria contínua como ferramentas para trazer produtores pequenos ao nível da certificação no país. Para isso, o setor colombiano estuda criar uma declaração pública para medir qual o estado da certificação de pequenos produtores no país, com indicadores básicos para identificar o que deve ser melhorado. Isso só será possível trazendo todos os atores envolvidos no setor para que invistam nesses projetos.

Segundo Vega, a certificação é difícil de ser conseguida no país, e o café na Colômbia é um negócio de margens baixas. São muitas famílias em situação vulnerável e com poucas terras. “A Federação tem em seu grupo de certificação aproximadamente 150 mil cafeicultores, o que significa que 400 mil ainda não estão incluídos na certificação”.

Segundo Vega, há muitos níveis de certificação e os custos de transição são altos. “Os cafeicultores ou não têm certificação alguma, ou têm uma certificação básica. Aqueles que estão certificados têm melhores condições de acesso ao mercado”, disse.

Vega chamou atenção para os efeitos das mudanças climáticas no setor. “As pessoas no campo estão mais vulneráveis às mudanças climáticas”. Associar sustentabilidade com qualidade do produto é um desafio. É preciso capacitar os produtores para que possam produzir em níveis sustentáveis. Na Colômbia, a assistência técnica está centralizada pela Federação.

Consumidores também têm papel importante, sobretudo as novas gerações, que possuem muito mais interesse em critérios de sustentabilidade. “Acreditamos que o café é um bom meio para que a população sinta que está contribuindo para a sustentabilidade”. O programa colombiano possui projetos para melhorara o acesso ao mercado para pequenos produtores, para que tenham a oportunidade de exportar diretamente.

Desafios para o futuro

“O alcance da sustentabilidade precisa partir de uma ação conjunta, com empresas privadas, governos e ONGs”, disse a hondurenha Suyapa Diaz, coordenadora do Programo Pequeno Agricultor do Grupo Jaremar. Em Honduras, o cultivo da palma africana se tornou um dos setores de maior projeção na economia do país, com 170 mil hectares de plantações. Dentro dessa realidade, os produtores independentes formam mais de 63% de toda a produção nacional da planta. Segundo a coordenadora, cultivar a palma como meio de subsistência, frequentemente com mão de obra familiar, traça o perfil do pequeno produtor hondurenho.

Por representarem uma considerável parcela do cultivo da palma africana, há o interesse em ingressar esses produtores em práticas sustentáveis para que alcancem os grandes mercados. “Um importante desafio para nós está relacionado à organização. No nosso país, o setor não está sendo bem guiado e não temos uma visão clara. Há uma diversidade de tamanhos de área e há pouca assistência técnica. Não temos incentivo financeiro e contamos com pouco apoio do governo. E, mais importante, o pequeno produtor desconhece o impacto ambiental de suas atividades”, destacou.

O Grupo Jaremar formou uma estratégia para assumir a logística do processo de certificação, disponibilizando técnicos para fazer visitas, aumentando frota de caminhões, entre outras ações. Em aliança com a Proforest, o Grupo conseguiu a criação de um pequeno fundo de investimento voltado para um grupo de pequenos produtores, utilizando ferramentas do Sharp para que os produtores busquem não apenas certificação, mas práticas sustentáveis em toda a sua produção.

Fonte: Iseal Alliance

 

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