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Mercado

Orgânicos: Produção Viável

24/03/2016

A agricultura orgânica no Brasil teve início na década de 1970 e emergiu como alternativa ao uso de químicos em contextos socioeconômicos e movimentos filosóficos de ideias contrárias à agricultura convencional (Penteado, 2010).

A agricultura orgânica é um sistema integral de gestão da produção que promove e melhora a saúde do ecossistema agrícola, incluindo sua biodiversidade, ciclos biológicos e atividade biológica do solo. O sistema enfatiza, ainda, práticas de manejo em preferência ao uso de insumos externos à propriedade, levando-se em conta a adaptação dos sistemas às condições regionais, utilizando práticas agronômicas, métodos mecânicos e biológicos, em detrimento do emprego de materiais sintéticos para realização das funções de um determinado sistema (FiBL; Ifoam, 2008).

A produção orgânica protegida, com uso de estufas, exige mais cuidados que a de campo aberto. Esta alteração é proposital e gerenciada para controlar todos os fatores e atingir uma produção fora de época de forma a contornar o problema da sazonalidade das culturas, oferecendo a oportunidade de produzir com qualidade e de obter melhores preços para os produtos (Santos, 2009).

No Brasil, o produtor orgânico deve fazer parte do Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos, o que é possível somente se estiver certificado por um dos três mecanismos para garantir a qualidade dos alimentos: a certificação, os sistemas participativos de garantia e o controle social para a venda direta sem certificação. Esses mecanismos são regulados pela Instrução Normativa 19, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa/ Brasil, 2007, 2009).

Dados quantitativos da produção específica de produtos orgânicos ainda são muito escassos no Brasil. Segundo levantamento do IBGE (2006), os estabelecimentos agropecuários produtores de orgânicos representavam, aproximadamente, 1,8% do total investigado no Censo Agropecuário. Ainda, segundo dados do censo do IBGE (2008/2009), o consumo per capita de tomatein natura no Brasil é de 4,9kg e no Rio Grande do Sul é em média 7,2kg, mostrando o potencial deste cultivo.

Um estudo foi desenvolvido com o objetivo de dimensionar o processo e estudar a viabilidade técnica e econômica da implantação de estufas para produção de tomate orgânico e de uma agroindústria para processamento mínimo do tomate produzido para a cidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul.

Metodologia

Foi estudada a implantação de estufas para produção de tomate orgânico, com duas safras por estufa por ano, em seus mínimos e específicos detalhamentos para diversificar a produção de uma propriedade rural, situada no município de Capão do Leão, no Rio Grande do Sul.

Realizou-se o dimensionamento dos equipamentos para produção de tomate minimamente processado e para a venda in natura, além do fluxograma e do balanço de massa para o processo. Também, foi estudado o quadro de funcionários necessários para realizar todas as atividades.

Foram realizadas: enquete para dimensionar o mercado consumidor, análise Swot (Casarotto, 2009), através da matriz de Ansoff, e análise de viabilidade econômica, através dos índices: VPL, TIR, TIRm, TMA e payback (Buarque, 1991). Também, foram estudados quatro cenários com variações de preços do quilo do tomate orgânico: normal: R$ 4,50, otimista: R$ 7,00, pessimista 1: R$ 3,00 e pessimista 2: R$ 3,00 (porém, com 12 estufas).

Resultados e discussão

Na pesquisa realizada com os consumidores locais, 78% dos entrevistados disseram que consomem produtos orgânicos, 33% consomem frequentemente e 67% consomem às vezes. Quarenta e dois porcento dos entrevistados compram produtos orgânicos em supermercados, 37% em fruteiras e 21% em feiras de produtos orgânicos. Quanto aos estabelecimentos, juntos compram cerca de 1t/semana de tomates no Ceasa local, que apresenta uma variação de preço muito grande (principal problema citado).

A pesquisa mostrou-se semelhante à realizada em grandes centros brasileiros, conforme Market Analysis (2010).

Figura 1 – Fluxograma e balanço de massas da unidade


Figura 2 – Planta baixa da agroindústria e corte da estufa

Figura 3 – Perspectiva das estufas, da agroindústria e do galpão

O projeto foi estudado através da implantação de seis estufas produzindo 10.136kg de tomate por estufa, em duas safras anuais e a agroindústria beneficiando 340kg/dia, funcionando 16h/dia, com sete funcionários. O tomate colhido será armazenado por 24 horas, em seguida lavado por aspersão, escovado e secado com ventiladores. Após, os tomates serão classificados por tamanho em quatro classes (40mm, 60mm, 80mm e superior a 80mm), conforme a legislação brasileira.

Os tomates serão embalados em dois tipos, um para o mercado varejista (supermercados, fruteiras) em embalagens de isopor com 500g, envoltos em plástico filme e outro para os estabelecimentos alimentícios, em caixas de papelão com 20kg. Essas embalagens poderão ser armazenadas na câmara fria por no máximo 20 dias, pois, em média, a duração dos frutos é de 28 dias.

Quadro 1 – Análise Swot do empreendimento

Se no cenário pessimista 1 fossem instaladas 12 estufas, os indicadores seriam melhores, como mostra o cenário pessimista 2, demonstrando que o aumento da escala de produção também tem grande influência na viabilidade do projeto.

Tabela 1 – Cenários estudados e seus respectivos indicadores econômicos

Conclusão

Há uma demanda de 10.000kg de tomate orgânico na cidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul. São necessárias seis estufas para atender esta demanda e uma agroindústria com capacidade instalada de 349kg/dia, além de oito funcionários.

Verificou-se que o projeto é viável, pois a TIR foi maior que a TMA, nos cenários normal, otimista e pessimista 2, VPL positivo e payback entre dois e cinco anos.

O projeto, com seis estufas, requer mais cuidados no preço final de venda, apresentando dificuldades no fluxo de caixa com os preços mais baixos, como no cenário pessimista 1, com isso, não gerando retornos financeiros expressivos.

Este artigo foi publicado na edição 88 da revista Cultivar Hortaliças e Frutas. Clique aqui para ler a edição.

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André Schiller Silva, Maria Laura Gomes Silva Luz, Carlos Alberto Silveira Luz, Gizele Ingrid Gadotti, Mário Conill Gomes, Lucas Malheiros Villani

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