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Agroecologia aponta alternativas e novos caminhos para os sistemas convencionais

04/12/2017
Agricultura familiar certificada pela ABIO (certificação participativa) em Teresópolis, Rio de Janeiro. Foto: Sylvia Wachsner

Agricultura familiar certificada pela ABIO (certificação participativa) em Teresópolis, Rio de Janeiro. Foto: Sylvia Wachsner

Problemas cada vez mais caros e de complexa solução rondam a agricultura convencional. O pacote monocultura-adubo químico-agrotóxicos-transgênicos tem dado sinais de esgotamento em algumas frentes. Resistência a agroquímicos; surgimento de mais pragas; perda gradual da capacidade nutritiva do solo, e, consequentemente, da produtividade, e poluição de mananciais são alguns dos problemas para os quais a pesquisa e os agricultores buscam alternativas no campo da biologia e da agroecologia.

O professor Carlos Armênio Khatounian, da Área de Agroecologia e Agricultura Orgânica da Esalq-USP, lembra, por exemplo, de uma lagarta, a falsa-medideira, que virou praga após o surgimento da ferrugem da soja. A aplicação intensiva de fungicida para controlar a ferrugem matou outros micro-organismos que a controlavam. “Sem inimigos naturais, ela se tornou uma praga”.

Uma grande multinacional do setor de agroquímicos, a FMC, resolveu direcionar, há cerca de 15 anos, parte dos seus investimentos para o desenvolvimento de defensivos biológicos. Segundo o presidente da companhia no Brasil, Ronaldo Pereira, esta é a linha que mais cresce na empresa, na base de 30% ao ano, enquanto o rendimento total da indústria de agroquímicos no Brasil deve se manter ou subir levemente em 2017, diz. “A tendência é que os biológicos ganhem mais importância”. Atualmente, 4% do faturamento da FMC, de US$ 520 milhões em 2016, veio dos biológicos. Entre as vantagens, ele aponta menor custo, um tempo mais curto para o registro e a dificuldade das pragas criarem resistência.

Mitos

Na pesquisa e nas próprias lavouras, alguns mitos têm sido quebrados em relação à agricultura que se volta a práticas ecológicas. O principal paradigma a cair por terra é de que “custa mais” ser sustentável. Recente pesquisa feita na Esalq-USP prova que, ao contrário, a sustentabilidade é mais rentável. A autora do estudo, a agrônoma Dienice Bini, testou o efeito de práticas de sustentabilidade sobre o desempenho econômico de produtores de café. Sob orientação da professora Silvia Helena Galvão de Miranda, Dienice apurou que a renda do produtor sustentável aumentou em relação ao produtor convencional. “O custo de produção em cafezais certificados foi de R$ 408,99 por hectare (referente à média das safras 2011 e 2013), e o de um produtor não certificado foi menor, de R$ 394,91”, diz Dienice. “Mas o produtor certificado colheu mais por hectare, 47,8 sacas, ante 39,9 do convencional”.

Além do café, outra importante cultura que contribui para o superávit da balança comercial brasileira, a cana-de-açúcar, tem exemplos cabais de que pode ser economicamente viável quanto mais métodos naturais forem adotados. “Representantes da agricultura convencional sempre vêm me procurar para ampliar seus conhecimentos em relação a técnicas que aliem preservação da biodiversidade com aumento de produtividade”, relata o empresário Leontino Balbo, de Sertãozinho (SP), um ícone do setor.

Principal produtor e exportador mundial de açúcar orgânico, sob a marca Native, Balbo cultiva 22 mil hectares de cana orgânica, seguindo os preceitos da “Agricultura Revitalizadora de Ecossistemas”. Biodiversidade é a palavra-chave, principalmente em relação à vida do solo. “Ao mesmo tempo que essa agricultura providencia produção comercial em larga escala, restaura os recursos naturais presentes no ecossistema”, explica. “Após 30 anos de trabalho, a fertilidade dos nossos solos é maior do que há 500 anos, isso comprovado cientificamente, por meio da restauração da bioestrutura ativa do solo”.

O resultado é uma produtividade 25% maior em relação à média dos canaviais de SP e até 7 cortes por planta, ante a média de 4 a 5 no entorno. O produtor é categórico ao afirmar que, sob a agricultura convencional, o solo está se degradando. E que esta forma de produção terá de mudar seus métodos. “Produtores no Centro-Oeste já estão percebendo isso”, afirma.

Fonte: O Estado de S.Paulo (Por Tânia Rabello, matéria publicada em 30 de novembro de 2017)

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