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Especialistas divergem sobre os “benefícios” dos alimentos transgênicos

04/07/2018

Imagem: Reprodução/Internet

O fato de as empresas que produzem transgênicos terem a necessidade de ir atrás dos ganhadores de prêmios Nobel, após mais de duas décadas do início da produção comercial desses alimentos, deixa claro que as dúvidas sobre as consequências da produção e consumo desses alimentos não estão resolvidas.

Essa é a opinião do engenheiro agrônomo e ex-coordenador de Agroecologia (Coagre) do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), Rogério Pereira Dias, sobre o posicionamento de 109 ganhadores do Nobel em relação à rejeição da organização ambientalista Greenpeace aos alimentos transgênicos.

Os laureados assinaram, na última semana, uma carta aberta pedindo que o Greenpeace reconheça as conclusões de instituições científicas competentes e que também abandonem as campanhas contra organismos geneticamente modificados, em especial, o arroz dourado.

Porém, para o especialista, é um reducionismo colocar esse embate como se a única oposição aos transgênicos fosse o Greenpeace. “Temos posições oficiais de vários países criando restrições ao plantio e à comercialização de transgênicos, e não seria de se esperar que isso continuasse a acontecer após tantos anos em que essa tecnologia entrou no mercado, se não fosse pelo fato de ainda existirem muitas dúvidas sobre seus impactos sobre a saúde e sobre o meio ambiente”, ressalta Dias.

Ele acrescenta ainda que há uma forte pressão no Congresso Nacional do Brasil para a retirada da identificação de transgênicos das embalagens dos alimentos pelo fato de existir uma falta de confiança da população sobre os riscos de consumir esses produtos. “Se a sociedade achasse bom consumir transgênicos, estaria brigando para aumentar a visibilidade do ‘T’, como acontece com os produtos orgânicos, por exemplo, em que todo produtor orgânico tem orgulho de mostrar sua identificação como tal”, avalia.

RISCOS

Segundo o engenheiro agrônomo, não há um consenso científico em relação aos riscos do consumo dos transgênicos. Ele prega o princípio da precaução. “Não acho que a sociedade deva ser cobaia num processo em que fica claro que o uso dessa tecnologia tem como objetivo principal o lucro para algumas empresas que passaram a poder ‘patentear’ as suas sementes e criar reservas de mercado ao associarem as sementes aos agrotóxicos produzidos por elas mesmas”, enfatiza.

De acordo com Dias, isso fica muito claro na entrevista dada pelo então ministro da Agricultura dos Estados Unidos, na época da liberação dos transgênicos naquele país, no filme o ‘O Mundo Segundo a Monsanto’, no qual ele diz claramente que a decisão da liberação não foi técnica nem científica, e sim política. “Isso deixa a entender que se referia ao tipo de política que estamos, infelizmente, acostumados a ver no Brasil, do toma lá dá cá entre empresas e políticos”, lamenta.

SANIDADE

Dias lembra que a ideia que se tinha de diminuir o uso de agrotóxicos, uma das principais bandeiras levantadas em relação à produção dos transgênicos, também não se tornou uma realidade. “Parece-me que não há mais dúvidas de que os transgênicos não fizeram a prometida redução do uso de agrotóxicos, que era uma de suas maiores propagandas”, destaca. Para ele, o efeito foi o contrário, pois após a entrada dos transgênicos, o uso de agrotóxicos deu um salto no Brasil, principalmente de herbicidas, pela vinculação da transgenia à resistência a um determinado produto. “O desenvolvimento de resistência de insetos e plantas espontâneas é outra consequência bem visível do uso dessa tecnologia”, argumenta.

COMBATE À FOME

Considerando a necessidade de se dobrar a produção de alimentos nos próximos 30 anos e os benefícios dos transgênicos para esse processo, Dias acredita que, primeiro, é preciso refletir sobre a veracidade dessa afirmação. “Por mais que se estime que a população vá continuar crescendo, é certo que as taxas de crescimento vem baixando fortemente em todo o mundo”, observa. E ressalta outra questão importante: “Hoje, temos alimentos mais do que suficientes para alimentar toda a população do planeta, mas, mesmo assim, há quase um bilhão de pessoas passando fome no mundo”.

Segundo dias, o problema da fome está associado a fatores sociopolíticos que não serão resolvidos só com o aumento da produção. “Antes de pensarmos em estratégias para esse aumento, deixando de lado questões relacionadas à saúde e ao meio ambiente, seria mais racional trabalharmos pela redução do desperdício dos alimentos já produzidos e pela reeducação alimentar, já que hoje as doenças causadas pelos maus hábitos alimentares são consideradas como epidemias em muitas partes do mundo”, salienta.

Outro fator importante a ser considerado, de acordo com Dias, relacionado à necessidade de se dobrar a produção, é que a concentração, cada vez maior, dos setores envolvidos em toda a cadeia agroalimentar (produção de insumos, processamento de alimentos e comércio varejista) torna o alimento, prioritariamente, um negócio em que o mais importante é o lucro das empresas. “Vender muito, mesmo que para desperdiçar, é bom para os negócios”, argumenta.

“Precisamos de políticas públicas sérias que coloquem novamente os produtos agrícolas como prioritários para a segurança e soberania alimentar da população e não só como itens que podem fazer aumentar o PIB do País”, arremata.

Equipe SNA /SP 

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