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Para representante do movimento Slow Food no Brasil, a certificação atrapalha produtores de orgânicos

27/09/2018

Foto: Sylvia Wachsner (OrganicsNet/CI Orgânicos)

Por que os agricultores orgânicos devem pagar uma taxa anual para colocar um selo que certifica sua produção como livre de veneno enquanto o produtor que usa agroquímicos não tem obrigação alguma? Essa é uma das perguntas do agricultor familiar Antonio Augusto Santos, um dos representantes do movimento Slow Food no Brasil, que defende o direito das pessoas de sentir prazer na alimentação, utilizando produtos artesanais de qualidade que são produzidos respeitando o meio ambiente, os agricultores e consumidores.

Santos, que cultiva várias frutas, legumes e verduras em sua propriedade de 3 hectares certificada há 25 anos como orgânica em Pescaria Brava (SC), foi um dos palestrantes da 3ª Conferência Internacional Agricultura e Alimentação em uma Sociedade Urbanizada, realizada na última semana em Porto Alegre, com 170 especialistas de 63 países, além de produtores, agrônomos, estudantes e outros integrantes da sociedade civil. O objetivo da conferência: discutir uma nova agenda agroalimentar que contemple a produção e consumo de alimentos  mais saudáveis.

Ativista da agroecologia e crítico do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), o paulista de 53 anos integra a rota dos butiazais no sul do país. Ele afirma que é preciso mudar o sistema de produção para preservar o planeta, que os programas de incentivo à agricultura familiar estão morrendo e que a agroecologia tem capacidade de alimentar toda a população brasileira, desde que haja planejamento.

Antonio Augusto Santos, um dos representantes do movimento Slow Food no Brasil. Foto: Marcelo Curia (Ed. Globo)

Quando questionado sobre os motivos que o levaram a defender a “descertificação”, Santos defende que essa fiscalização tem que partir dos consumidores e que é injusto um produtor precisar pagar para expor sua mercadoria como livre de venenos, enquanto quem produz de maneira tradicional não possui esse gasto. “As empresas que trabalham com certificação por auditoria vivem desse valor. Não é o caso da nossa associação, a Ecovida, que me cobra R$ 300 por ano. Algumas chegam a cobrar R$ 5.000. A certificação, na verdade, está nos atrapalhando porque se eu tenho que marcar que meu produto é produzido sem veneno, por que o outro não precisa marcar que seu produto tem veneno? Então, descertifica e dá a opção para o consumidor. A fiscalização tem que ser do próprio consumidor. Muitos clientes que compram meu produto na feira ou nas casas aparecem lá na roça de vez em quando para conhecer a produção. Quando o alimento vai com selo, qual a garantia real de que é verdadeiramente natural? Já houve casos de associados nossos que fraudaram a produção, foram flagrados, perderam a certificação e foram expulsos da Ecovida”, explica.

Para ele, os programas implementados pelo governo federal para a aquisição de alimentos produzidos pela agricultura familiar deixou de ser uma boa alternativa para os agricultores. “Infelizmente, o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos ) está morrendo no país todo. Nos últimos anos, houve um desmonte desse programa e também do PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar). Os recursos que chegam para as cooperativas distribuírem aos produtores é cada vez menor. Nos bons anos, nossa cooperativa recebia R$ 1,5 milhão ou R$ 2 milhões de PAA. Como cada agricultor pegava R$ 8 mil, muitos eram atendidos. Hoje, o valor não chega a R$ 80 mil. É um desestímulo para o produtor e enfraquece o cooperativismo, que é a base de nossa produção orgânica”, afirma. “Uma forma de incentivar a agricultura familiar no país seria ter um Suasa (Sistema Unificado de Atenção à Sanidade Agropecuária) regional que nos permitisse, por exemplo, vender uma linguiça feita em Pescaria Brava em outras cidades da nossa região. Seria interessante também que os gestores municipais focassem o uso de comida local na merenda escolar para ter uma alimentação mais saudável, com mais valor nutricional. Sabemos que é muito difícil a criação de leis para beneficiar o setor porque o lobby dos ruralistas em Brasília pelas grandes empresas que trabalham com alimentação no país é muito grande. O que eles fazem é nos marcar ao contrário. Por exemplo, agora está sendo lançado um pão ultraprocessado que eles rotulam como artesanal, se apropriando de uma marca nossa”, finaliza.

O Slow Food é um movimento que nasceu em 1986 em Turim, na Itália, quando jovens locais se rebelaram contra a instalação de uma unidade do McDonalds. Carlos Petrini, considerado o fundador, e amigos diziam que não queriam “fast food” (comida rápida), que o alimento deveria ser consumido de forma lenta (slow), prazeirosa. Três anos depois, o Slow Food ganhou o status de associação internacional sem fins lucrativos. Conta hoje com mais de 100.000 membros e tem escritórios na Itália, Alemanha, Suíça, Estados Unidos, França, Japão e Reino Unido, e apoiadores em 150 países, entre eles o Brasil.

O princípio básico do movimento é o direito ao prazer da alimentação, utilizando produtos artesanais de qualidade especial, produzidos de forma que respeite tanto o meio ambiente quanto as pessoas responsáveis pela produção e os consumidores. Defensor da biodiversidade, o movimento prega que o prazer de saborear uma boa comida e bebida deve ser combinado com o esforço para salvar grãos, vegetais, frutas, raças de animais e produtos alimentícios que correm perigo de desaparecer devido ao predomínio das refeições rápidas e do agronegócio. (Fonte: Revista Globo Rural)

Para ler a entrevista completa com Antonio Augusto Santos, um dos representantes do movimento Slow Food no Brasil, realizada pela revista Globo Rural acesse https://glo.bo/2xWT3XI.

Fonte: Revista Globo Rural

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