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Ex-piloto de F-1 faz de fazenda da família uma incubadora de sustentabilidade

23/11/2018

Pedro Paulo Diniz, fundador da Fazenda da Toca, posa para foto em sua propriedade em Itirapina (SP). Foto: Renato Stockler (Folhapress)

Era de moto de enduro que aos 10 anos ele explorava os campos e a gruta da Fazenda da Toca. “A motinha era meu cavalo”, brinca Pedro Paulo Diniz, ao rememorar temporadas na propriedade rural da família em Itirapina, a 217 km de São Paulo.

O refúgio da infância ficou na memória, quando a paixão pela velocidade levou o filho do empresário Abílio Diniz (presidente do Conselho de Administração da BRF, ex-Pão de Açúcar) para os circuitos de automobilismo mundo afora, dos 19 aos 30 anos.

Aos 25, chegou à elite do esporte, no papel de playboy da F-1, circulando de Ferrari pelo Principado de Mônaco e em festas da top Naomi Campbell.

Aos 48, Pedro Paulo se empolga com bólidos nada velozes, como a plantadeira da John Deere que semeia feijão na nova fazenda de Diniz e sócios, em Avaré (SP). “São máquinas autônomas e de precisão que têm a melhor tecnologia agrícola para nosso propósito de trabalhar junto com a natureza”, empolga-se o sócio também da Rizoma.

O novo negócio foi criado neste ano para levar a 1 milhão de hectares no Brasil o modelo que associa agricultura, pecuária e floresta. “Precisamos sair de um paradigma de escassez, de competir por recursos naturais, para um de abundância”. Não se importa de ser tachado de “Poliana” ao apostar numa agricultura que regenera o planeta, em vez de destruí-lo. “Acredito nisso”, afirma.

Seu cartão de visitas é a Toca, a primeira fazenda certificada como Empresa B no mundo, ao se consolidar como negócio de impacto positivo.

Ali, o fazendeiro que quer promover a revolução verde do século 21 agrega produção em larga escala de ovos orgânicos (detém 48% do mercado brasileiro) e sistemas agroflorestais de cítricos, grãos, eucalipto, alimentos e frutas.

Ao lado de um campo de golfe e de uma pista de polo que servem ao lazer dos Diniz, a Toca virou incubadora de um modelo inovador de agricultura que imita a natureza (segue a lógica da floresta reunindo na mesma área plantio de diferentes culturas), regenera o solo e abole agrotóxicos (faz controle biológico de pragas).

Como piloto de uma corrida de longa distância por uma agricultura mais sustentável, Pedro foi incorporando o propósito ao seu estilo de vida e aos investimentos como herdeiro de Abílio Diniz, nono entre os brasileiros mais ricos da Forbes, com fortuna estimada em US$ 3,5 bilhões (R$ 12,98 bilhões).

“Tenho muito orgulho do Pedro e do que se transformou a Fazenda da Toca, que está com nossa família desde 1970 e se tornou um modelo de sustentabilidade no Brasil e no mundo”, diz o patriarca.

O espírito empreendedor da família foi escola. “Foi virtude e desafio”, resume Pedro, referindo-se ao duro processo de validar o modelo de negócio.

Numa tentativa de dominar toda a cadeia, abriu fábricas de laticínio e sucos, que eram deficitárias. “Tive que voltar atrás e simplificar o negócio”. Foi forçado a demitir um terço dos funcionários e ganhou fios brancos na cabeleira precocemente grisalha. Passou a focar na produção de ovos orgânicos para sair do prejuízo. “Hoje a Toca virou um bom negócio em três pernas: social, ambiental e financeiro”.

Na Fazenda da Toca, as galinhas são criadas soltas. Foto: Renato Stockler (Folhapress)

Prefere ser “guardião deste tripé” à vida nos circuitos da F-1, onde estreou por uma equipe menor, com as bênçãos do pai que, no começo, torceu o nariz para a decisão do filho de correr na Europa em vez de cursar faculdade.

“Como piloto, vivi um ambiente de glamour, mas de relações superficiais e competitivas. Eram muitos egos, me relacionava com personagens, e não com pessoas de verdade”.

Ele se orgulha dos cinco anos de F-1, mesmo sem resultados expressivos. Seu melhor momento foi liderar uma corrida em que quebrou antes da bandeirada final. “Depois que passou o deslumbre e a excitação, aquele circo não me deixava mais feliz”.

No caminho, acidentes graves, entre eles um na largada do GP da Alemanha, em 1998, quando capotou a Sauber a 200 km por hora e saiu ileso. Em Silverstone, na F-3 inglesa, fraturou uma vértebra, a C-5. “Deu para remendar”.

O ex-piloto fez sucesso mesmo no ramo da alta gastronomia. Há 11 anos, tornou-se sócio investidor do Maní, que, desde 2013, integra a lista dos 50 melhores restaurantes do mundo.

O negócio surge quando a modelo Fernanda Lima convida Pedro, com quem teve um breve namoro, para abrir um restaurante vegetariano em São Paulo, com três amigas. “Era a gangue das gaúchas querendo fazer um restaurante vegetariano”, relata ele, sublinhando a origem sulista das sócias, mais condizente com churrascaria. “Aquilo não podia dar certo”, brinca.

Deu mais do que certo. A ideia evoluiu para um menu que privilegia alimentos orgânicos e naturais, comandado por Helena Rizzo, melhor chef do mundo em 2014.

A abstinência de carne vermelha está com dias contados. “A maioria da carne que se consome tem contaminação de hormônios e antibióticos. Vou consumir de novo quando souber a procedência”, diz Pedro. No caso, rebanho de fazendas da Rizoma.

Com 1,74 m e 61 kg, o mesmo peso de quando era piloto, ele malha e faz ioga três vezes por semana. É adepto da Ashtanga. “Tem sequência fixa e posso praticar onde for”, explica.

Ele namora há um ano Aline Fernandes, professora de ioga com 22 mil seguidores no Instagram. Um perfil recheado de posturas em paisagens espetaculares e dicas de saúde e beleza. “A natureza sempre nos guia na direção da cura, do amor, da conexão e da felicidade”, postou a ex-modelo.

Pedro diz que a ioga foi o fio que o levou de volta para a Toca e aos negócios de impacto socioambiental.

“Pratico desde 2003 e daí fui puxando essa cordinha de vida mais saudável”. O ex-piloto também pedala muito. É de bicicleta elétrica que chega à sede da Rizoma, um coworking na Vila Madalena. “De carro levo 10 minutos. De bike, 3”, compara o dono de um BMW elétrico, que não o deixou a pé na greve dos caminhoneiros. “Era só ligar na tomada”.

Vive em um prédio sustentável no bairro alternativo. “Quando morava nos Jardins, me sentia enjaulado em casa, cercado de muros e alarmes. Não conhecia o vizinho”, relata.

Voltou a residir em SP após o divórcio de Tatiana Floresti, com quem embarcou na aventura de construir uma vida na Toca. Mora a 200 metros da ex-mulher, com quem foi casado por dez anos. Compartilham a guarda dos dois filhos, Pedro, 12, e Catarina, 10, criados no meio do mato, estudando na escola na fazenda, junto com filhos dos funcionários.

Quando o primogênito nasceu, Pedro estava sob o impacto do documentário “Uma Verdade Inconveniente”, de Al Gore. “Que mundo vou deixar para esse moleque? O filme reforçou mais o desejo de investir em negócios sustentáveis. ”

O ex-piloto quer deixar um legado para além da família, da Toca e do Brasil. Define-se como facilitador entre o homem, a natureza e o mercado. “Digo aos meus filhos que papai adora trabalhar junto com a natureza e vê-la prosperar fazendo bons negócios que ajudam a regenerar o planeta”.

Fonte: Folha de São Paulo – Eliane Trindade 

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