Você sabe o que é agricultura regenerativa?

 

Leite Ninho, BioBrasil, foto: Sylvia Wachsner, OrganicsNet

Modelo agrícola defende que é possível produzir enquanto se recupera a terra e se preserva o meio ambiente, restaurando áreas degradadas, conservando espécies animais e aumentando a captura de carbono no solo.

Criada nos anos de 1980, a agricultura regenerativa vem ganhando cada vez mais destaque entre as gigantes produtoras de alimentos no mundo, como Nestlé, PepsiCo e Danone.

O conceito, criado pelo agricultor americano Robert Rodale, aposta em uma abordagem holística na produção agrícola, resgatando princípios conservacionistas do início da agricultura orgânica.

Não há uma definição aceita por unanimidade. Mas, em resumo, a agricultura regenerativa defende que é possível produzir enquanto se recupera a terra e se preserva o meio ambiente, restaurando o solo degradado, conservando espécies polinizadoras (especialmente abelhas), aumentando a captura de carbono e a retenção de água no solo.

Entre as principais características do modelo estão: 

  • Adotar a rotação de culturas;
  • Inserir plantas de cobertura;
  • Reduzir o arado no solo;
  • Manter o desenvolvimento de outras plantas na pastagem;
  • Diminuir uso de fertilizantes e defensivos;
  • Promover o bem-estar animal;
  • Incentivar práticas justas de trabalho para os agricultores.

Práticas sustentáveis no Brasil

Muitas destas técnicas já são amplamente utilizadas pelo agronegócio brasileiro, como o plantio direto, que preconiza o mínimo revolvimento da terra, a cobertura do solo com palhada e a rotação de culturas.

Estima-se que o Brasil tenha 22 milhões de hectares com o sistema plantio direto, segundo a Federação Brasileira de Plantio Direto. E até 2030, esse número pode passar de 50 milhões.

Pedro Freitas, pesquisador da Embrapa, faz uma breve descrição do que seria a agricultura regenerativa.

“É o tipo de agricultura que melhora a dinâmica de matéria orgânica do solo, sequestra carbono, aumenta a infiltração de água no solo favorecendo o regime hídrico e evitando a erosão”, explica.

Ele lembra que, quando uma  tonelada de solo é erodida, se perdem insumos (adubos, sementes, plantas), mão-de-obra, matéria orgânica, e se libera CO2 para a atmosfera, causando prejuízos com inundações e com secas e falta de água.

“O custo disso para os agricultores e para a sociedade brasileira é de 15.7 bilhões de dólares por ano”, ressalta Freitas.

Grandes empresas comprometidas com o meio ambiente 

De uns anos para cá, grandes empresas mundiais da indústrias de alimentos têm escolhido a agricultura regenerativa como modelo de negócios. Entre os motivos, está a preferência crescente dos consumidores por um agro mais sustentável.

De acordo com a empresa mundial de pesquisa Nielsen, 75% dos millennials (aqueles nascidos entre 1981 e 1995) estão mudando seus hábitos de consumo para reduzir o impacto no meio ambiente.

Eles também estão mais dispostos a pagar mais por produtos que contenham ingredientes ecologicamente corretos ou sustentáveis ​​(90%), ingredientes orgânicos/naturais (86%), ou produtos que tenham aspectos de responsabilidade social (80%).

A Nestlé – maior empresa de alimentos do mundo – anunciou no final do ano passado, que irá investir mais de R$ 6 bilhões nos próximos cinco anos para estimular práticas de agricultura regenerativa em toda a cadeia de fornecimento da companhia.

“Sabemos que a agricultura regenerativa desempenha um papel fundamental na melhoria da saúde do solo, restaurando os ciclos da água e aumentando a biodiversidade no longo prazo”, disse Paul Bulcke, presidente da Nestlé global.

Nestlé, aveia orgânica, BioBrasil, foto: Sylvia Wachsner, OrganicsNet.

Parceria com produtores 

A companhia afirma que vem trabalhando com mais de quinhentos mil agricultores e 150 mil fornecedores, que fazem parte da sua cadeia mundial de suprimentos, para facilitar empréstimos para aquisição de equipamentos específicos que ajudem na adoção do modelo regenerativo.

Além disso, a Nestlé também oferece prêmios financeiros para matérias-primas produzidas através de práticas de agricultura regenerativa.

Deste total de produtores, mais de treze mil estão no Brasil e são beneficiados de alguma forma com o programa. Por aqui, a Nestlé pretende reduzir pela metade suas emissões de carbono até 2030 e atingir emissões líquidas zero em 2050.

Para isso, está desenvolvendo variedades de café e cacau de maior rendimento com menor impacto ambiental e ,simultaneamente, novas soluções para reduzir as emissões de carbono e outros gases do efeito estufa na sua cadeia diária de fornecimento de laticínios, em parceria com a Embrapa.

“Temos a responsabilidade de liderar a agenda de sustentabilidade no setor de alimentação e ser exemplo”, afirmou Marcelo Melchior, presidente da Nestlé Brasil, ao Valor.

A empresa pretende, até 2025, que 30% de sua matéria-prima tenha como origem a agricultura regenerativa.

Modelo também é adotado na pecuária leiteira

A francesa Danone, uma das líderes mundiais na produção de bebidas lácteas, vem reforçando suas políticas em relação à agricultura regenerativa, em especial, ao bem-estar animal da sua cadeia de fornecedores.

A ambição da Danone é obter 100% dos ingredientes produzidos na França a partir da agricultura regenerativa até 2025.

No Brasil, a companhia anunciou, no ano passado, que vai aumentar seu investimento em projetos de agricultura regenerativa.

A  empresa se comprometeu a expandir de 3 para 188 hectares nos próximos anos, as áreas que adotam essas práticas sustentáveis e de bem-estar animal.

A inciativa responsável por esta expansão é o Projeto Flora, que propõe aos produtores de leite a adoção da integração entre pecuária e floresta. O objetivo é reter carbono no solo com o plantio de diversas espécies arbóreas e, consequentemente, aumentar o bem-estar dos animais.

 “A Danone sabe a importância que práticas de agricultura regenerativa tem para a agropecuária brasileira e reconhece que a indústria tem um papel fundamental no incentivo à difusão dessas práticas para que os benefícios por elas trazidos possam acontecer o mais rápido possível”, destaca Luisa Silveira, Gerente de Projetos de Sustentabilidade e Inovação da empresa.

Segundo a companhia, fazendas leiteiras com melhores padrões de bem-estar animal apresentam produção e qualidade de leite significativamente mais altas.

Luisa explica que a adoção desse modelo agrícola leva a um aumento exponencial  dos indicadores de saúde do solo, fazendo com que os produtores de leite vejam seus custos de produção caírem.

“Além disso, os maiores teores de sólidos no leite comercializado garantem a qualidade dos produtos que chegam às mesas dos consumidores. Toda a cadeia se beneficia e, por isso, nos orgulhamos muito de conduzir um projeto pioneiro de sistema silvipastoril intensivo como o Flora.”, finaliza.

Um dos fornecedores de leite da Danone no Brasil, Caio Rivetti, que tem sua fazenda localizada em Guaranésia, Minas Gerais, explica seu olhar sobre a agricultura regenerativa e a importância desse programa que ele tem orgulho de fazer parte.

“A proteção do solo e não o seu esgotamento tem melhora para o solo e amplia a biodiversidade do solo. Nos tornamos um lugar com fusão de conhecimento e a Danone cumpre com o propósito dela de se preocupar com o meio ambiente e a comunidade”, pontua Caio.

Ao longo das últimas décadas, a PepsiCo também vem realizando uma série de investimentos com o objetivo de tornar suas práticas agrícolas cada vez mais sustentáveis.

Segundo a companhia, os snacks de batatas do portfólio da PepsiCo são fabricados com 100% de suas batatas produzidas de forma sustentável.

Todos os fornecedores brasileiros do tubérculo cumprem cerca de 175 requisitos do Programa de Agricultura Sustentável, que segue rigorosos padrões internacionais sobre práticas sustentáveis no campo, por meio dos pilares de cuidado ambiental, econômico e social.

São compradas por ano 122 mil toneladas do tubérculo, provenientes de produtores de 6 estados brasileiros, Minas Gerais, São Paulo, Goiás, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

“É urgente o compromisso de grandes players como a PepsiCo para uma mudança efetiva nas práticas nos campos, garantindo um equilíbrio cada vez maior entre a produtividade e a sustentabilidade”, diz o presidente da PepsiCo Brasil Alimentos, Alexandre Carreteiro.

“Por meio do nosso Programa de Agricultura Sustentável (SFP), que já existe há anos, trabalhamos com agricultores em todo o mundo para implementar e escalar uma série de práticas agrícolas sustentáveis e regenerativas”, conclui.

A companhia tem como objetivo atingir 100% de suas matérias-primas produzidas de forma sustentável até 2030 e ampliar para 7 milhões de acres (área que corresponde a 2,83 milhões de hectares, ou aproximadamente 4 milhões de campos de futebol) sua área de cultivo de safras e matérias-primas com práticas de agricultura regenerativa em todo o mundo.

Proteção do solo e uso eficiente da água

O Grupo Dzierwa, de Contenda, Paraná, planta batata com a PepsiCo há 3 gerações. É o produtor parceiro mais antigo da companhia, e utiliza um software de inteligência artificial para registrar por foto a incidência de pragas e doenças.

“Somos pioneiros na aplicação de novas tecnologias no cultivo de batata no Brasil e com essa parceria com a PepsiCo chegamos a um produto de melhor qualidade para a indústria e para o consumidor final”, conta o produtor e agrônomo, Alexandre Dzierwa, que é a terceira geração da família no cultivo da batata.

“O que fazemos aqui impacta muitos outros produtores e gera melhores e mais sustentáveis práticas para toda a cadeia”, completa.

A partir de todas estas boas práticas e do uso da tecnologia, a PepsiCo obteve um aumento de 30 a 37% de produtividade por hectare e uma redução em 25% de custo por tonelada produzida.

Em 2018, a companhia teve a iniciativa de medir a quantidade de água limpa e potável usada das estações de beneficiamento que lavam as batatas, para reduzir o desperdício. O resultado foi a redução de 60% do uso de água limpa, que representa cerca de 50 milhões de litros de água desde o início do projeto.

Também foram realizados investimentos por parte dos produtores desse segmento para reduzir o uso de água limpa da natureza, tais como armazenar água de chuva, usar aspersores pressurizados, e criar um circuito fechado por tanques de decantação, reciclando a água de forma natural.

Pensando na regeneração do solo, os produtores parceiros no Brasil também vêm utilizando plantas forrageiras e a rotação de cultura na produção de batata.

“A Pepsico está trabalhando fortemente para a redução de emissões de carbono na agricultura. São também utilizadas diversas técnicas para restaurar e devolver vida a diferentes tipos de solos, como manter o solo com uma cobertura vegetal na entressafra, evitando erosão”, disse a empresa em comunicado à imprensa.

A companhia tem a meta de reduzir em mais de 40% as emissões absolutas de GEE (gases do efeito estufa) em toda a cadeia de valor até 2030.

Fontes: Nielsen, Syngenta, PepsiCO, Nestlé, Danone e Valor Econômico