Leite orgânico: mercado convidativo

O mercado de leite orgânico ainda é muito pequeno no país, não chega a 1% do que é produzido nacionalmente, mas a procura cresce graças às exigências do consumidor, que procura alimentos mais naturais e saudáveis. O leite orgânico paga 50% a mais do que o convencional para o produtor e resulta num posicionamento diferenciado no mercado. No entanto, é preciso que o produtor esteja disposto a fazer alterações radicais no sistema produtivo. O manejo da propriedade é totalmente diferente e proíbe o uso de qualquer tipo de químico, seja na adubação da pastagem ou no tratamento sanitário, como carrapaticidas, por exemplo.

— O leite orgânico é produzido de forma completamente diferente do convencional.  A pastagem não pode receber nenhum tipo de adubo químico, ela tem que ser desenvolvida em sistema orgânico, os animais não podem receber nenhum tipo de antibiótico ou medicamento produzido quimicamente. Os produtores só podem utilizar produtos fitoterápicos, homeopáticos ou naturais e o leite para envaze e resfriamento tem que passar por vários processos que são diferenciados dos mesmos tratamentos feitos na produção do leite convencional. Os produtores de leite que querem entrar no sistema orgânico precisam ter no mínimo 12 meses de produção para entrar no sistema de transição. Somente após estes 12 meses o produto dele pode começar a ser considerado orgânico — explica o especialista João Paulo Guimarães, pesquisador na área de sistemas orgânicos de produção animal da Embrapa Cerrados.

Uma das transformações radicais para os produtores é o uso de produtos homeopáticos e fitoterápicos, com a proibição do uso de antibióticos e carrapaticidas. No entanto, Guimarães explica que a principal mudança está no manejo diferenciado da lavora. É preciso mudar a forma de pensar a produção na fazenda. Uma das principais medidas é utilizar vacas mais adaptadas ao clima brasileiro porque um fator muito importante para o desenvolvimento de carrapatos é a temperatura e umidade. Com animais mais adaptados, eles se tornam mais resistentes e facilitam o controle.

Outra medida importante é a adoção de rotação de pastagem. Segundo pesquisas feitas pela Embrapa Cerrados, 80% dos carrapatos nas pastagens são controlados apenas com o manejo rotativo dos piquetes. No caso dos animais que forem infectados com os parasitas, é recomendado o uso de medicamento à base de nim, que é uma árvore indiana com princípio repelente. O nim mara os carrapatos, faz com que as fêmeas percam sua capacidade de ovulação e mata as larvas jovens também.

— Como nós estamos em um país tropical e temperatura e umidade são os principais agentes que podem funcionar como proliferadores dos carrapatos, animais que são mais adaptados ao nosso clima são mais resistentes. A combinação de genótipos adequados para produção de leite, assim como o manejo rotativo dos pastos para interromper o ciclo de reprodução do carrapato (que é de 21 dias) a gente consegue reduzir ao máximo a infestação dos carrapatos — explica.

No caso da adubação das pastagens também é preciso fazer mudanças radicais. Os principais nutrientes utilizados na agricultura são o nitrogênio, fósforo e potássio. Na produção convencional de leite, as pastagens são adubadas com ureia, supersimples ou supertriplos e com cloreto e sulfato de potássio. No sistema orgânico, a fonte de nitrogênio passa a ser a adubação verde através do plantio de leguminosas que fixam nitrogênio no solo. Já o fósforo e potássio são oferecidos ao solo na forma de pó de rochas naturais fosfatadas ou potássicas.

Para oferecer mais nitrogênio ao solo, os produtores orgânicos também podem fazer aplicações de fungos micorrízicos. Os pesquisadores utilizam os micorrizas presentes naturalmente no solo e produzem uma quantidade muito maior para ser aplicada nas culturas. Estes fungos aumentam a capacidade de absorção de nutrientes das raízes das plantas, melhorando a nutrição.

Sacrifícios que compensam

Todo este esforço na mudança do sistema produtivo pode compensar muito o produtor, já que o leite orgânico é supervalorizado no mercado. O preço dele chega a ser mais do que 50% maior do que o convencional. No Rio de Janeiro, por exemplo, o pesquisador da Embrapa Cerrados diz que o valor pago pelo leite convencional é de 0,80 centavos por litro enquanto com o leite orgânico o produtor ganha R$ 1,20 por litro. No caso de Brasília, Guimarães diz que esta diferença é ainda maior. No entanto, a produção no sistema orgânico é menor já que o animal consome uma alimentação diferente e a vaca utilizada é mais mestiça porque é adaptada às condições tropicais. A média diária de produção fica entre 8,2l e 10 litros.

— Para o produtor conseguir equilibrar os custos da produção do leite orgânico, o valor pago ao leite deve ser em torno de 50% maior do que o valor do leite tradicional. Os custos de produção são menores. Você usa menos adubo, menos insumos de fora da propriedade. Entretanto, a mão-de-obra tem que ser muito bem remunerada e a qualidade tem que ser maior. Isso acontece porque o sistema evita a utilização de máquinas agrícolas, trabalha com plantio direto, com compostos orgânicos. O que acontece é que no Brasil o canal de comercialização do produto orgânico geralmente é feito em feiras, mercados direcionados para um público que está disposto a pagar por aquilo, além do mercado ser localizado. Antigamente, a gente dizia que o produto orgânico era um nicho pequeno de mercado e hoje a gente não pode mais dizer isso. O mercado para estes produtos já bem maior — pondera o pesquisador.

Para mais informações sobre o sistema de produção de leite orgânico os produtores podem entrar em contato com a Embrapa Cerrados pelo telefone (61) 3388-9898

fonte: Portal Dia de Campo

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