Orgânicos fazem parte de um mercado em formação

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O Brasil figura desde 2009 como o líder mundial no consumo de agrotóxicos. Na contramão dessa tendência, o mercado de alimentos orgânicos, que foca numa produção mais saudável, vem crescendo no país nos últimos anos. O setor, no entanto, ainda enfrenta vários problemas, como dificuldades de logística, excesso de burocracia e carência de insumos.

Não há estatísticas oficiais do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) sobre o volume de orgânicos produzidos e comercializados no país. Só estão disponíveis estimativas elaboradas com base em dados de associações de supermercados e de produtores, que não conseguem abranger todo o mercado.

Segundo o Organics Brasil, um programa ligado à Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex), uma das poucas organizações que compila esses dados, o mercado de orgânicos vem crescendo a uma taxa de quase 40% ao ano – um número bem superior às médias registradas nos Estados Unidos e na Alemanha, alguns dos maiores mercados de orgânicos do mundo.

Só que esse crescimento se dá sobre uma base que era bastante diminuta há até poucos anos. “A legislação nacional sobre orgânicos só foi regulamentada em 2011, o que só permitiu a entrada de muitas empresas e produtores há pouco tempo”. afirma Ming Liu, coordenador executivo do Organics Brasil, acrescentando que nos Estados Unidos a legislação já está em vigor desde 2000. “Estamos uma década atrás”, reconhece.

Segundo as estimativas do projeto, o mercado de orgânicos no Brasil teve receitas de R$ 2 bilhões em 2014, um número pouco expressivo diante dos R$ 468 bilhões de todo o setor agropecuário no ano passado, e responde por apenas 0,4% do total produzido no país. O volume ainda está bem atrás de mercados já tradicionais como EUA e Alemanha, onde o setor responde por 4% a 5% do total produzido. Nos EUA, o maior mercado do mundo, os alimentos orgânicos geraram receitas de US$ 35 bilhões em 2014.

O mercado de orgânicos ainda é uma iniciativa típica de pequenos agricultores e extrativistas familiares e de alguns poucos empresários ousados. “Ainda não há nada parecido no país com grande redes de orgânicos, como a Bio Company, na Alemanha, e a Whole Foods, nos Estados Unidos. Nós ainda estamos com o mercado em formação”, afirma Sylvia Wachsner, coordenadora do Centro de Inteligência em Orgânicos da Sociedade Nacional de Agricultura. “Ainda assim, é possível ver que o mercado está crescendo por causa de algumas amostras, como as feiras livres de orgânicos, que vêm aumentando o faturamento”, afirma.

O Ministério da Agricultura afirma que existem 11 mil agricultores no Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos. Já o Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) calcula que haja mais de 400 feiras livres no país. Mesmo assim, não é possível saber exatamente qual foi o mercado total abocanhado por esses produtores e feirantes.

Para Liu, é só uma questão de tempo, para que grandes empresas entrem no mercado com força. “Já existem iniciativas nesse sentido. Gigantes do varejo, como Casino, Carrefour e Walmart, já oferecem centenas de produtos orgânicos para o consumidor brasileiro. Nas lojas do grupo Casino, por exemplo, os orgânicos já respondem por 1,5% dos produtos comercializados. Outras empresas, como a Coca-Cola, já lançaram chá-mate orgânico”, afirma.

Ambos os especialistas afirmam que, apesar de muitos problemas, o futuro dos orgânicos no Brasil é promissor. “O mercado de orgânicos no Brasil não está sendo empurrado por empresas que tentam vender um produto mais saudável, mas pelo consumidor que está mais preocupado com a sua saúde. As empresas tentam correr atrás. A demanda já está estabelecida, só falta uma cadeia produtora mais organizada”, afirma Wachsner.

Entre os problemas da cadeia, além das típicas dificuldades de logística enfrentadas por todos os setores produtivos no Brasil, está a falta de insumos para a elaboração de produtos orgânicos de valor agregado, o que faz com que a oferta ao consumidor seja limitada aos produtos primários. “Quem quer produzir chocolate orgânico, por exemplo, muitas vezes não consegue por meses obter cacau que se enquadre nas regras porque o cultivo ainda é muito pequeno”, afirma Wachsner.

Para Ming, o setor em que a falta de insumos é mais evidente é a pecuária, pois a produção de carne e laticínios orgânicos é praticamente insignificante. “Poucos produtores brasileiros conseguem comprar com regularidade rações que não incluam sementes ou produtos geneticamente modificados. Muitas vezes, quando esse tipo de proteína vegetal está disponível, o agricultor prefere exportar o produto, provocando escassez para os empresários locais”, afirma. “Nós temos uma demanda maior que a oferta”, afirma.