Orgânicos tem mão de obra mais cara, diz Darolt

foto: OrganicsNet
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OrganicsNet entrevistou o engenheiro agrônomo do Instituto Agronômico do Paraná – IAPAR e Doutor em Meio Ambiente pela UFPR e Universidade de Paris, Moacir Darolt.  Recentemente, ele lançou o livro “Conexão Ecológica: novas relações entre agricultores e consumidores”. Confira abaixo o resultado da entrevista.

De que maneira é possível expandir a capacidade produtiva de alimentos orgânicos, sem que isso afete as diretrizes estruturais do conceito orgânico?

Será preciso investir em Assistência técnica e extensão rural; em pesquisa, inovação e tecnologia; formação de pessoal (treinamento de produtores, técnicos), além de apoiar financeiramente (custeio, investimento) os produtores na fase de transição.

Considerando que a maior parte da produção orgânica está distante dos centros urbanos (onde se concentram boa parte dos consumidores), qual é a alternativa para que produtores não fiquem tão dependentes, e não sejam tão prejudicados pelo transporte terceirizado?

Foto: Gabriel Chiappini
Foto: Gabriel Chiappini

Os produtores que estão longe dos centros urbanos deveriam optar pelo cultivo de produtos menos perecíveis. Sugiro que produtores de municípios mais distantes priorizem a venda para Programas Governamentais como o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos – que paga até R$ 8 mil/ano/produtor) e o PNAE (Merenda Escolar – que paga até 20 mil/ano/produtor).  Hoje a Prefeitura deve comprar parte da merenda (30%) de produtos da agricultura familiar. O ideal seria trabalhar num raio de até 100 km do local de produção.

Com a sua experiência na cadeia de produção orgânica, que outros fatores, além do frete e logística, encarecem o valor final do produto?

A baixa escala de produção e a venda individual implica em maiores custos por unidade do produto. Além disso, existem custos extras de certificação e perdas durante os primeiros anos de conversão. Deve-se considerar ainda que a agricultura convencional exclui dos cálculos de formação de preços a contabilidade ambiental, exteriorizando os impactos ambientais, ao passo que a agricultura orgânica interioriza esses custos.

Quais as diferenças existentes no custo da produção orgânica em relação à convencional?

Para exemplificar cito uma comparação que fizemos entre a batata orgânica e a convencional, produzida em pequenas propriedades aqui no Paraná. Os resultados mostraram que no sistema convencional a produtividade média (400 sacas/hectare) foi superior ao sistema orgânico (206 sacas/hectare).  Os gastos com insumos foram, em média, 80% maiores no sistema convencional. Os custos variáveis percentuais foram similares (em torno de 70%). No sistema orgânico o que aumenta bastante é o custo da mão-de-obra e dos serviços, quase 30% superior.

No seu livro recente, “Conexão Ecológica”, você discute outras possibilidades de comercialização dos orgânicos, que não as redes de supermercado. Estamos falando de novas oportunidades de comercialização que poderiam se consolidar no mercado brasileiro? Essas novas oportunidades permitiriam reduzir o preço dos produtos comercializados?

No Brasil boa parte dos consumidores orgânicos (42%) já compram em lojas especializadas de produtos orgânicos /naturais e outra parte significativa (35%) se abastece em feiras do produtor. Pesquisa do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC,2012) identificou 140 feiras ecológicas em 22 das 27 capitais brasileiras. A produção e o consumo vêm crescendo em canais alternativos ou circuitos curtos (quando o produtor vende diretamente ou através de um único intermediário ligado ao processo – cooperativa, associação, outro produtor, pequeno mercado, restaurante, etc).

Feira Orgânica de Ipanema -RJ / Foto: Gabriel Chiappini

Meu estudo mostra que essa é uma tendência mundial, onde se percebe um  crescimento do número de consumidores conscientes que procuram alimentos de base ecológica, do local e da estação, preços mais justos e um estilo de vida com menos estresse, o que considero a chave para religar consumidores e produtores. O livro relata experiências de grupos de consumidores do Brasil e de várias partes do mundo, mostrando  que ao participar de uma cadeia curta o alimento cria uma identidade, agregam-se valores como qualidade, saúde, apoio à economia local e ao meio ambiente.  Temas como o turismo rural, acolhida na colônia, caminhadas na natureza, propriedades pedagógicas, slow food, feiras ecológicas, cestas entregues em domicílio, abastecimento de pequenos restaurantes e distribuição de produtos via mercados institucionais (alimentação escolar, hospitais, creches, etc)  são abordados como alternativas. Para os cidadãos e governos que buscam valorizar a produção alimentar, mantendo vivas as tradições, protegendo a biodiversidade, a cultura e a sabedoria local esse pode ser um caminho interessante.

Orgânicos são caros ou os alimentos convencionais é que são baratos, devido a subsídios governamentais?

O preço é uma combinação de vários fatores (oferta, sazonalidade, logística, custo produção e comercialização, entre outros), mas para o consumidor vai depender do local onde ele compra e do tipo de produto. Quando o consumidor compra em circuitos longos (hoje, cerca de 72% dos consumidores orgânicos compram em supermercados) o produto é considerado caro, por ser diferenciado (pouca quantidade, melhor qualidade, alto preço). Na Europa, essa diferença, mesmo num supermercado, em média não passa dos 30% (a mais para os orgânicos).  Aqui no Brasil pode passar facilmente dos 100%. O alto preço continua sendo o principal fator desestimulador da demanda. Nossa pesquisas mostram que o preço de uma alface orgânica, por exemplo, pode ser 400% menor numa feira orgânica do produtor quando comparada ao supermercado. Observa-se que a maioria dos consumidores está disposta a pagar mais por um produto orgânico (70% pagariam até 20%). Uma opção intermediária tem sido as cestas orgânicas entregues em domicílio (que podem ser solicitadas pela internet) e têm preços menores que os supermercados e um pouco superiores as feiras.

É importante destacar que caro é um alimento de baixa qualidade (nutricional, contaminado por agrotóxicos), que você não conhece a origem (nem o produtor), que foi embalado e transportado por longas distâncias, um alimento sem vida (tipico da comida industrializada e fast food!).

A produção orgânica será capaz de suprir a crescente demanda e atender as populações de mais estados brasileiros?

Quanto mais o consumidor brasileiro demandar um alimento ecológico, maior será a responsabilidade dos agricultores, dos técnicos, da pesquisa, do ensino e do governo para atender  essa demanda.  Sim, existe capacidade técnica para isso! O mercado institucional é uma boa estratégia pois atende o que podemos chamar de consumidor coletivo dentro de um circuito curto de comercialização.  Assim, por meio de programas de governo os alimentos de base ecológica são comprados diretamente dos agricultores familiares ou das associações e cooperativas de produtores e chegam até a população e escolas públicas.

Quais as perspectivas em relação ao mercado e ao comportamento do consumidor?

Os dados mostram uma perspectiva mundial de crescimento dos orgânicos em torno de 20 % a 30% ao ano. Algumas linhas com potencial de mercado são frutas orgânicas in natura, derivados de leite e carne. As outras seguem a tendência do processamento: vinhos orgânicos e cachaça; cosméticos e ervas medicinais; cereais (soja, trigo, centeio); massas, processados sem açúcar, produtos orgânicos sem glúten, brotos (alfafa), óleos e extratos, além de papinha para crianças, barra de cereais e hortaliças processadas.

Em relação ao consumidor existe uma tendência de mais pessoas aderirem  a valores e comportamentos sustentáveis. O Instituto Akatu e Ethos mostraram que 5% dos consumidores brasileiros já seguem essa tendência.

Dentre todas as discussões sobre a agroecologia e os orgânicos, há algum assunto que está fora da pauta, que não está sendo discutido?

O que poderia ser mais discutido é a educação para o consumo responsável, no sentido de conscientizar as pessoas sobre os impactos socioambientais de seus hábitos de consumo, estimulando a escolha por produtos de base ecológica.  A maioria das pessoas ainda não faz a ligação entre o alimento que consome, a sua saúde e a forma como foi produzido o alimento. Percebo que ainda há muito trabalho pela frente. Para se ter uma ideia quando você chegar a 70 anos terá consumido em torno de 25 toneladas de alimento. É preciso fazer boas escolhas para uma boa saúde!

Já podemos falar que o mercado orgânico no Brasil é consolidado? Caso contrário, o que falta para que isso ocorra?

O mercado orgânico no Brasil começou a despontar a partir do ano 2000, representa cerca de 1,5% do total do mercado de alimentos e aproximadamente 1% da área total plantada. Isso é apenas o começo. Será preciso investimentos em diferentes setores como apoio aos produtores orgânicos (investimentos e custeio; seguro agrícola); assistência técnica e extensão rural;  apoio à pesquisa, inovação & desenvolvimento; investimentos em aparelhos de comercialização da produção (transformação/processamento/distribuição) com a criação de mercados para a agricultura familiar e prioridade aos circuitos curtos; formação de pessoal nas escolas técnicas e universidades;  criação   e aperfeiçoamento.

O Livro “Conexão Ecológica”  pode ser adquirido no sítio do IAPAR, pelo endereço:

http://www.iapar.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=1034

Fonte: OrganicsNet

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