Sistema de inteligência vai rastrear a produção de leite orgânico

Junior Saldanha, produtor de leite orgânico em São Paulo.

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), com o apoio da Associação Brasileira de Produtores de Leite (Abraleite), criou um sistema de inteligência para a rastreabilidade do leite orgânico no Brasil. A informação foi divulgada nesta quarta-feira pelo coordenador da Comissão Nacional de Leite e Derivados da Abraleite, Junior Saldanha, durante webinar organizado pela associação, em parceria com a Sociedade Nacional de Agricultura (SNA) e Centro de Inteligência em Orgânicos (CI Orgânicos). O debate foi coordenado pela diretora da SNA, Sylvia Wachsner.

O sistema de rastreamento anunciado por Saldanha tem por objetivo traçar um mapa da localização dos produtores de leite orgânico no País para identificar suas demandas e dificuldades e oferecer possíveis soluções para o setor.

O representante da Abraleite destacou que a certificação e a rastreabilidade em toda a cadeia produtiva é que vão garantir ao consumidor a qualidade do produto. “Há um nicho de consumidores para esse mercado. Um produto certificado é um produto rastreado desde início da cadeia. É importante que o produtor esteja com sua certificação em dia”, destacou Saldanha.

Ele lembrou que o leite, assim como outros produtos, para obter a chancela de orgânico, precisa ser certificado por empresa especializada ou por meio do modelo participativo, atendendo às determinações do Ministério da Agricultura.

Controle biológico e solos 

Saldanha também destacou durante o encontro a importância do controle biológico e da adubação orgânica para garantir uma boa produção, e comentou que esses fatores devem atender às expectativas do chamado ‘novo consumidor’, cada vez mais exigente em relação às origens e especificações dos produtos.

Alberto Figueiredo, engenheiro agrônomo e diretor da SNA, comentou sobre a importância da valorização do solo no processo de conversão orgânica, fazendo um contraponto com a necessidade cada vez maior de utilização, pela agricultura tradicional, de fertilizantes, inseticidas, fungicidas e outros insumos para obter um controle maior da produção.

“A recuperação da matéria orgânica do solo por meio da incorporação de vegetais, e de forma planejada, é o principal fator que atrai o produtor para a conversão”, afirmou Figueiredo. “Essa alternativa atende à necessidade de os animais terem mais resistência a pragas e doenças, estabilizando seu organismo”.

Gestão 

Por sua vez, Saldanha enfatizou que a gestão na propriedade leiteira, seja orgânica ou não, é determinante para o desempenho da atividade.

“O produtor tem de seguir essa gestão à risca, seja na composição do rebanho, na compra de insumos e animais, etc. A gestão tem de ser muito bem feita, caso contrário o produtor não terá êxito. Não é recomendável entrar nessa atividade por causa do preço do leite. Se o produtor for ineficiente, irá quebrar. Não há mais espaço na pecuária leiteira para amadorismo”, disse o coordenador da Abraleite.

Além disso, ressaltou Saldanha, o produtor precisa ter um diferencial e buscar agregação de valor em seu trabalho. “A industrialização da produção é também um caminho”, complementou.

Desafios 

Já o diretor da SNA chamou a atenção para alguns desafios do setor, como o uso de novas tecnologias. “Não dá mais para ficarmos alheios às tecnologias que permitem produzir mais e com menor custo. Deve haver um equilíbrio entre as necessidades que os animais têm para se alimentar e a gestão da produção na propriedade”.

Figueiredo disse ainda que os produtores devem trabalhar em conjunto para otimizar a produção, e acrescentou que, nesse sentido, eles precisam ser estimulados.

“Somos muito isolados e avessos à organização. Isso pode ser comprovado pelas cooperativas, que foram perdendo fôlego na medida em que uma visão imediatista acarretou na realização de leilões diários em relação ao valor pago à produção, fazendo com que os produtores abandonassem as cooperativas em busca do sonho de preços corrompidos propositalmente, até mesmo por dumping, em processos industriais inadequados e que deram prejuízos”.

Ainda segundo Figueiredo, “as entidades do setor estão muito desunidas e têm dificuldades de chegar a um acordo comum nos debates e negociações”.

Conversão 

Durante o encontro online, o representante da Abraleite também falou sobre os procedimentos básicos que os produtores convencionais devem cumprir no processo de conversão para a pecuária orgânica.

“Primeiro é preciso saber se existe uma demanda para o produtor. Depois, é necessário procurar uma assistência técnica ou consultorias privadas e posteriormente uma certificadora”, disse Saldanha, acrescentando que “o planejamento é essencial para que a conversão seja bem sucedida”.

Segundo ele, o período de conversão da propriedade e dos animais dura em média 18 meses. Adubações orgânicas, fungos e homeopatia são alguns dos elementos utilizados nesta atividade. “Dá para conciliar, a princípio, o tradicional e o orgânico, substituindo as práticas de maneira gradativa, até estabelecer um marco zero”.

Impactos 

Quanto ao impacto econômico dessa mudança, Saldanha explicou que, a princípio, a conversão “gera um desconforto”, porque segundo ele, evolve investimento financeiro e dedicação total ao processo.

“Migrar para uma produção orgânica significa inovação e empreendedorismo. No período de conversão do solo, o produtor não tem altas despesas, pois a atividade não foge muito ao processo tradicional. No caso dos animais, é preciso trabalhar com grãos orgânicos, que são alimentos mais caros. Ao mesmo tempo, há linhas de crédito que ajudam os produtores nessa fase”.

Ainda durante o debate, Saldanha falou sobre o ingresso de grandes empresas de alimentos no mercado de orgânicos, e sobre o potencial das atividades de produção no setor para a redução dos impactos ambientais, destacando aspectos como o sequestro de carbono e a promoção do bem-estar animal.

.

Fontes: Abraleite/CI Orgânicos

Equipe SNA